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Homenagem a todas as Mães do mundo

13 Maio

Para as mães de todo o mundo ofereço Rosas… fotos: Rosane Scherer

Abaixo dois textos que acho lindo, sob os aspectos de dois autores. Affonso Romano de Sant’Anna com sua crônica Antes que Elas Cresçam compartilhado com amigos …. e Caio Riter com Ser pai é bom demais. compartilhado pelo amigo Luis Ventura.

ANTES QUE ELAS CRESÇAM

Affonso Romano de Sant’Anna

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.
É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços , os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.
Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.
Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal? Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins , cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração. Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento , com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães , às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.
Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route , bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens,, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.

Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.
No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam , mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.
Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

(O homem que conheceu o amor/Rocco, 1988)

De Luis Ventura:
Meu amigo Caio Riter me fez parar alguns instantes para ler, depois tempo mais longo para refletir, e um maior ainda para retornar das divagações e turbilhão de sentimentos despertados pela sua escrita. Grato a ele por expressar tão bem este nosso sentimento, mas que temos que ter a sensatez de reconhecer que o papel de MÃE é único, assim como o de PAI, mas esta um passo na nossa frente. E que tenhamos a sabedoria de não tentarmos nos igualar, mas sim completar…
Meu modesto PARABÉNS a todas as mães por simplesmente serem… MÃE.

Ser pai é bom demais.

Caio Riter

Houve um tempo em que eu acreditava que pais eram mães ou que, pelo menos, podiam ser. No sonho de ser pai, do qual eu me alimentava, sabia que homens e mulheres se tornam iguais no momento da concepção. Diferenças inexistiam, era o que pensava. Afinal, basta transitar pelas ruas de nossa cidade e encontraremos muitos pais em funções outrora essencialmente maternas: bebês no colo, mamadeiras em apronte, carrinhos que vão sendo guiados com delicadeza por másculas mãos, futuros sendo empurrados pelos balanços e carrosséis da vida, mãos seguras a guiar caminhos. Eu tinha essa certeza; a observação e o sentimento é que a gestavam em mim: pais e mães são indistintos na vida de um filho.

Assim, na minha fantasia, eu ia sonhando e me preparando para ser um pai-mãe. Homem repleto de maternidade. E como inexistem forças capazes de impedir que um sonho bem sonhado real se torne, virei pai. Coração explodindo em grávida expectativa.

Curti desde o primeiro instante aquela semente que crescia no ventre da mulher amada. Experiência repetida. Duas outras mulheres vindo ao mundo, frutos do nosso desejo. E ver aqueles rostinhos desprotegidos, alegres, brilho de afeto resplandecendo a cada carinho, a cada conquista, a cada despertar, sempre foi o presente maior. Fui, então, sendo — entre erros, acertos e tentativas — o que queria ser: pai.

Fui homem de acordar na madrugada ao chamado da palavra-mágica; fui homem de me deitar no chão, desprovido de qualquer ameaço de maturidade, para virar barco, cavalo ou outra coisa qualquer, vítima do desejo infantil daquelas que foram sonhadas por mim. Fui homem também de invenção de teatros, de criação de personagens, que iam povoando aqueles pequenos corações e a casa toda; fui homem de canções de ninar, de histórias de boca, inventadas ali mesmo no momento exato da contação; fui herói de afugentar terríveis insetos, monstros horrorosos, que suscitavam gritos e pedidos de proteção. Fui sendo pai do jeito que sabia e que julgava que um pai devia ser.

Mas jamais fui mãe.
Um pai, por mais que deseje, nunca será mãe. Só pai, no tudo de bom que um pai possa ser. Porém, apenas pai. Nada mais que pai.

Um pai, por mais pai que seja, não é mãe. A mulher que gera um outro ser dentro de si estabelece uma relação de cumplicidade que homem nenhum, por mais competente que seja em sua tarefa de amar incondicionalmente seus filhos, atingirá. Nós, os pais, durante a gestação, na verdade, ficamos de fora. Por mais que sejamos chamados a participar, por mais que queiramos gerar junto o bebê que se forma, estamos de fora. Somos parte exterior, um apêndice numa relação visceral. Um coadjuvante que, por mais importante que seja sua participação na trama, é apenas personagem secundário. Apenas o amigo do mocinho. Amigo que precisa descobrir seus modos de atuação, que precisa fazer-se necessário na urdidura da narrativa familiar, a fim de ser também fundamental parte na história daquele que vai tornando-se gente.

Mas jamais será mãe.
Não nutriu com sua vida a vida do outro, não partilhou com o outro toda a sua carga emotiva, não dormiu o outro no embalo do ritmo do seu coração. Não. E tudo isso antes mesmo do nascer.

As mães, esses seres com os quais estabelecemos uma relação eterna (quer para o bem, quer para o mal), estarão sempre, me parece, na dianteira de qualquer pai que se arvoreem mãe. Elas nutrem os filhos não apenas com seu sangue, mas também com suas alegrias, com suas tristezas, com suas certezas e hesitações. Mães alimentam seus rebentos com a própria vida.

Ser pai, é claro, tem lá sua força no crescer de um filho. É união eterna também. Mas não é sobre isso que falo. Falo de algo que vem de além do nascimento. Relação mágica, dupla, forte. Não sei se me entendem. Entretanto, é apenas isso: se ser pai é bom demais; ser mãe deve ser melhor ainda.

http://caioriter.blogspot.com.br/2012/05/cronica-ser-pai-e-bom-demais.html

*LuisVenturaFotografia* http://www.olhares.com/LuisVentura
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